Ilustríssimo Senhor Ministro da Cultura
Gilberto Gil
Ilustríssimo Senhor Presidente
do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN
Dr. Luis Fernando Almeida
A ASSOCIAÇÃO TEATRO OFICINA UZYNA UZONA, sediada na Capital do Estado de São Paulo à Rua Jaceguai, 520, Bexiga, e seu Presidente José Celso Martinez Corrêa, portador da Cédula de Identidade nº 1.986.056, inscrito no CPF/MF sob nº 059.314.428-71, vêm, respeitosa e apaixonadamente, à presença de Vossas Senhorias, mediante o presente PEDIDO DE RECONSTRUÇÃO E PRESERVAÇÃO DA REGIÃO DE CANUDOS requerer a concessão do diploma legal de PAISAGEM CULTURAL à 3ª Canudos, a cidade atual e requerer, outrossim, a extensão deste mesmo diploma a Quixeramobim, cidade natal de Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro.
-COMO É ELE?
SEMPRE VIAJANDO (texto de A Terra, primeiro dos cinco capítulos da ópera de carnaval Os Sertões, realizada pelo Teatro Oficina entre 2002 e 2007.)
Quixeramobim-Canudos
Caminho do Roteiro
da Transmutação
de Antônio Macie
em
Antônio Conselheiro.
Canudo da Passagem do Corpo:
Homem
em seu sentido único,
civilizado,
ocidental do século 19-20, ainda no 21,
à sua transmutação
pela Re-Volta
em Trans-Homem.
Canudos é o Cosmos (Euclides da Cunha em Os Sertões)
Corpo plugado no Amor Total
Caosmos.
Estrada dos céus do chão
Peregrinada por um desesperado Antônio
até o encontro com um trans-Antônio:
O Conselheiro.
Hoje, nesta Estrada para os céus do chão,
Mortais Brazyleiros
do Mundo inteiro
Re-voltados
ComPaixão
Podem querer trilhar
Andarilhar
Viajandando Meditando
Navegando nas Veredas
Conselheiras dos Sertões.
Podem experimentar
A Revolução Anatômica do Corpo Colonizado
ao Retorno a Si Mesmo,
A Tudo
A Pã
À nossa Potência de Mortais,
Farandulando, cantando,
Nossa São Antônio de la Descompostella.
Esses pedidos são feitos à luz dos fatos e fundamentos a seguir aduzidos:
I. Preambularmente
A Associação Teatro Oficina Uzyna Uzona cria, recria, reinventa, reexiste, mantém e administra o Teatro Oficina, local em que se realiza, de forma ininterrupta, atividade de criação teatral desde 1958 em sua fase amadora no mesmo lugar do antigo Teatro Novos Comediantes, até hoje. Há 49 anos portanto. Trata-se de Associação constituída com a finalidade de gerir o Teatro Oficina, desenvolver a Arte do Teat(r)o Total, nascido da Música e do Ritmo, da Ópera de Carnaval Elektrocandomblaika, na Tragicomediorgya, formando Coros Protagonistas de Dytirambistas, Atuadores, Cantores, Dançarinos, Acrobátas, Artistas Plásticos, Videastas, Cybernéticos, Tragidramaturgos do Teatro Total Musical, de todas as idades, procedências sociais, étnicas e de diferentes países do mundo. Crianças e jovens do Movimento Bexigão que vêm do Bairro do Bexiga e dos lugares do Brasil por onde a Caravana passa. É Ponto de Cultura do MINC, onde a Educação confunde-se com a Cultura, a Poesia, a Arte, o Amor, e acima de tudo a Arte de Viver na Arte.
Toda esta Uzyna Uzona, por sua luta histórica de 27 anos para não deixar-se Massacar pelo Shopping SS produziu Paixão Ecológica pela Preservação, Ampliação e Cumplicidade total com a Reinvenção de Conceitos Inventivos, Suingados e Artísticos de Patrimônio Histórico. Paixão não exclusiva a seu espaço ameaçado de extinção há 27 anos, desejoso de ampliar-se em Anhagabaú da Feliz Cidade na rua Jaceguay 520, mas por todo o Patrimonio Trilionário do Brasil, sobretudo por Canudos e Quixeramobim, Terra de Antônio Maciel, e Canudos, Obra dos Conselheiristas e do Conselheiro.
II. Contexto Histórico de Quixeramobim e Canudos
Os Sertões de Euclides da Cunha, o Homero da Tróia de Taipa, foi lançado em 1902. Mistura antropofágica de geografia, história, filosofia, engenharia, antropologia, narrativa de guerra, é dividido em três partes: A Terra, O Homem e A Luta e relata a Guerra de Canudos, no fim do século XIX, a 1ª transmitida por telégrafo a todo mundo. Tornou-se o livro mais traduzido do Brasil e o precursor de todas as grandes interpretações do país.
Cantou-se, filmou-se, escreveu-se e muito se Canta e se Cantará ainda sobre Quixeramobim e Canudos. Nesta Saga destaca-se a protagonização de um Herói, Líder, Santo, Antônio Maciel, o Conselheiro, levado da Zona Rural para a Cidade de Quixeramobim, por seu Pai, para que o poupasse das intermináveis Lutas de Famílias entre os Maciéis e os os abastados Araújos. Lá educou-se, aprendendo latim, francês, ao mesmo tempo que fazia a escrituração da Mercantil do Pai, na Casa, também Moradia sua e de sua Família.
A Casa está até hoje conservada naquele Município, também chamado de Coração do Ceará, por localizar-se no centro geográfico do Estado e ter sido a capital da Confederação do Equador quando os Estados do Nordeste,
quiseram se libertar do domínio do Sul do Brasil.
Foi pedido a Osvaldo Costa Martins um dos líderes do movimento que nos levou a fazer Os Sertões em sua cidade que fizesse um depoimento sobre sua cidade visando o objetivo de irmaná-la à Paisagem cultural de Canudos. Ele assim expressou-se:
O Município tem um importante prédio tombado pelo IPHAN em âmbito nacional, foi construída na primeira metade do SÉC XIX, com recursos significativos de uma Senhora, esposa de um rico Coronel. Por Trágico Paradoxo ela tornou-se a primeira prisioneira da Cadeia que ajudou a construir. Foi acusada de tramar o assassinato do próprio marido. O Casarão, hoje restaurado, virou Câmara, Sede dos Poderes Públicos. A Cinqüenta metros da Casa de Câmara e Cadeia sedia-se imponente o Sobrado de Manuel Bandeira (atual Casa Paroquial), onde o poeta viveu a fim de tratar-se da tuberculose.
Em Janeiro de 2006, o Ministro Gilberto Gil esteve em Quixeramobim para fazer o tombamento da Casa de Antônio Conselheiro. A Casa pertence ao Governo do Estado do Ceará e aguarda recursos para restauração, recuperação do entorno e definição da sua ocupação e uso. Mesmo nas atuais condições a Casa de Antônio Conselheiro recebe centenas de visitantes semanalmente. Quixeramobim é cercada de grandes monólitos, o que lhe confere uma belíssima paisagem natural. Além disso, nessas enormes pedras são encontradas inscrições rupestres e em baixo relevo, constituíndo-se sítios arqueológicos riquíssimos. Em 1998, a arqueóloga Marcélia Marques (UECE) descobriu um cemitério milenar ao lado de um desses sítios, denominado de Pedra do Letreiro. A descoberta lhe valeu um objeto de estudo do doutorado na UFRGS, ainda em andamento. Alguns desses sítios foram interligados a trilhas, que podem ser feitas por turistas, visitantes e estudantes. O que pouco a pouco tem se estabelecido como programa cultural no Município.
Este movimento pareceu-me uma espantosa Arcádia contemporânea, como as dos Inconfidentes. Intelectuais, poetas, psicanalistas, que tomaram a iniciativa de convidar Os Sertões encenado pelo Oficina Uzyna Uzona, fazem parte dele. Envolveram o prefeito Edmilson Júnior, político de muito talento que ainda há de prestar muitos serviços ao Brasil. Segundo Osvaldo Costa Martins:
O grupo iniciou suas atividades em meados da década de 1990 e então chamava-se MAC – Movimento Antônio Conselheiro. Formado por aproximadamente vinte jovens, dedicou-se à memória de Antônio Conselheiro e de Canudos. Organizou seminários, concurso em escolas públicas, exibições de filmes, tudo em torno do líder do Bello Monte. Participou das rememorações dos 100 anos da Guerra de Canudos, na Bahia, e organizou um grande evento, por três anos, o Conselheiro Vivo. Após cinco anos de atuação, em 2000, desfez-se como instituição e seus membros voltaram a atuar formalmente vinculados à uma instituição em 2005. A nova ONG, denominada IPHANAQ (Instituto do Patrimônio Histórico Natural e Arquitetônico de Quixeramobim) é formada por oriundos do MAC e a maior parte de atores culturais do município: professores, estudantes e profissionais liberais. Todos estes últimos moram e trabalham em Quixeramobim. O objetivo maior é mover-ser por uma cultura constantemente re-existida. Daí a idéia de trazer Os Sertões para cá.
O convite desta cidade nos permitiu vivermos no nosso País de Dentro grandiosas noites com o povo do local, redescobrindo totalmente o próprio espetáculo que tínhamos criado. O Vento Aracati que chegava pontual nos espetáculos, depois de tardes ferventes de bochorno, esculpia curvas renascentistas nos figurinos. O Mar, um tecido azul acetinado, cobrindo toda a pista, figurando o vasto oceano cretáceo rolando suas águas entre o Atlântico e o Pacífico, cobrindo grande parte dos territórios setentrionais do nosso continente, no momento da sublevação dos Andes, no vazamento das águas que formou as terras dos sertões, foi arrancado pelo Vento das mãos dos atores e do público, voando até o teto muito alto do Teatro Oficina Pé na Estrada de Estádio, num Tsunami de Sonho Surreal. Foram muitas as Epifanias durante o espetáculo, o Reconhecimento progressivo e delicado do lugar, que tem além da Casa, a Igreja onde Antônio Maciel casou-se com Brasilina. Outra Igreja, a do Rosário, de uma Irmandade de Negros ex-Escravos. Impressões humanas e as coisas muito cheias de vida nos foram revelando Quixeramobim e Canudos como cidades gêmeas, de fortíssimo paisagismo humano, geográfico, cultural e histórico, de história sendo feita hoje, em 2007. Essa mesma história que faz hoje com que realizemos nosso o sonho às vezes sentido como impossível de fazer: Os Sertões em seu Ventre.
Em Iracema, José de Alencar, através da personagem de um velho Pagé Tapuia, revela o significado do nome da cidade: Ah! Aquele tempo! IÁ!, digo eu hoje, neste nosso vertiginoso tempo de retorno, em que América não é mais só Latina, mas AmerÍndia também. O berço tapuio de Antônio Conselheiro foi a pista inicial do enredo de sua Paixão. Optou por deixar sua cidade por recusar- a matar, como era regra no Sertão Patriarcal, sua esposa Brasilina, que fazia amor também com outros homens. Foi mudando de cidades, de profissões, seguindo o roteiro do amor livre de Brasilina, sempre por esta decisão absolutamente revolucionária, em sua época machista, de não praticar o Crime Obrigatório de desforra do Corno. Brasilina abandonou-o por um Homem Fardado. Desesperado, endividado, refugiou-se no Deserto, como Jesus, Maomé, Buda. Deixou seu terno preto e gravata, o uniforme de Homem do século XIX, como o de Chaplin, como do próprio Euclides da Cunha e seu corpo viou Qorpo Santo, abriu-se para o Cosmos, seu amor estendeu-se à toda natureza e à toda humanidade.
E assim se passaram 10 anos, e ninguém mais ouviu falar do moço tímido de Quixeramobim.
Mas um dia Aparece, Aparecido, em Itabaiana, na Bahia, abordoado ao clássico bastao em que apoiava seu salto trans-humano. Vestido num Hábito Azul de Brim Americano, um gnóstico, buscando Deus no próprio corpo, no dele e no do mundo: um Beato. Peregrino, caminhou mudo como uma sombra nas chapadas povoadas de duendes. Rejeitou no início os que se aproximavam para seguí-lo, amava a solidão, mas foi aceitando companhia, farandulando pelas estradas, construindo em troca de pouso e comida, com este povo nômade que se formava, estradas, açudes, 25 igrejas. Eram os Conselheiristas. Restauraram a maior Catedral do Mundo ao Ar Livre: Monte Santo e ergueram em mutirões cantando e dançando, mais de 12 casas por dia, e o mais espantoso, uma cidade que teria 25.000 habitantes em seu período mais populoso, salvos da seca que abalou todo o Planeta nesta época.
Canudos foi a segunda cidade da Bahia, gerida em forma muito sofisticada de Conselhos nada centralizada em sua pessoa. Esta epopéia deste Santo, pela Paz, energizada pela recusa da violência foi dar de encontro com a trágica Violência da Guerra. O Arquétipo da Guerra do Terror de Pós 11 de Setembro.
Os Conselheristas obtiveram muitas vitórias sobre as 3 Expedições do Exército, com perdas humanas desproporcionais de seu lado. Mas o Exército Brasileiro, em nome da Democracia, da República, da Liberdade, Fraternidade e Igualdade massacrou a Fogo Canudos.
Este Crime da Nacionalidade, como definiu Euclides, até hoje não foi reparado e constitui-se no fundamento de nossa República atual. O lugar ficou Maldito. Parentes, sobreviventes, foram pouco a pouco reerguendo uma outra Canudos, passaram-se mais ou menos sessenta anos e viram sua cidade ser engolida pelas águas represadas do Vaza Barris. A Ditadura Militar em 1964, com o movimento para derrubá-la ganhando forma, sentiu-se em perigo ameaçada com as velas que o povo passou a acender na estátua de Conselheiro feita por Mario Cravo, precursor de Kracjberg, em frente ao Teatro Castro Alves na Bahia. Feita com uma Árvore com os braços do Beato clamando aos céus, foi escondida pelos golpistas na Faculdade de Medicina. Hoje está no Museu de Arte Moderna da Bahia, que sobre a direção de Solange Farkas a está restaurando com o objetivo de devolvê-la à Praça Pública. O aparecimento de grupos paramilitares de direita, o embrinonário movimento de luta armada no Brasil do fim dos anos 60, assim como o movimento de massas de estudantes, artistas, religiosos, em passeatas, ocupações, luta contra a censura, ressucitaram o espírito de luta inssurrecional de Canudos. O Exército, sob a Paranóia de seu Poder abalado, pôs em execução um projeto de construção do açude de Cocorobó, concebido por Getúlio Vargas, para beneficiar Canudos, mas foi feito à maneira de recalcar por afogamento a memória revolucionária do lugar. Pois o Açude de Cocorobó muito pouco beneficiou Canudos, que até hoje recorre a carros pipas para furtar-se da secura dos ares e depende de exploradores da seca que ganham a vida vendendo água.
No centenário da Guerra a forte seca trouxe de volta o fantasma de Canudos. A Catedral da Cidade Engolida sob as águas emergiu poderosa, em imagens que estarreceram por sua beleza mítica de eterno retorno, o mundo. Arqueólogos de todo o país afluíram às ruínas para finalmente redescobrir a história de Canudos, no entanto durou pouco o trabalho, a chuva vagarosamente voltou a cair e inundou novamente o sítio. Hoje, em pleno vigor da Democracia Brasileira, esta ferida, esta nódoa sombria recalcada para nossa saúde de povo anunciado em Canudos e agora em plena ascenção, tem de ser tocada. Este Tabu tem que se transformar em Tótem. Essa origem de nossa Tragédia, que paira sobre todas as violências, tem de ganhar o estatuto de nossa Paisagem Cultural.
Nestes dias em que este documento é entregue ao Ministro Gilberto Gil e ao Presidente do Iphan, Fernando de Almeida, os habitantes da 3ª Canudos assistem à 3ª parte de nossa encenação de Os Sertões A LUTA I, acompanhados por um público vindo de muitas partes do Brasil, não mais para Massacrar a cidade, mas para atuar neste Rito de Início da Reparação, do Desmassacrre de todos os Males que a violência do Poder Imposto e da Negligência também dos Poderes Eleitos e da nossa própria, de brasileiros, causam. O gesto do IPHAN e do MINC de outorgarem a Quixeramobim e a Canudos o título de Paisagem Cultural coincidirá com o nosso desejo e acho que necessidade de todos nós, povo brasileiro nos desmassacrarmos, nos repararmos e iniciarmos nossa reconstrução, nosso ReCanudos. As águas que cobrem um cemitério de sertanejos e militares mortos na guerra estão lá. Por amor aos fatos, estas águas que estão lá, agora terão de vazar em Canudos perfurados como flautas, irrigando por gotas espermeadas estas terras, criando o sonhado Pomar Vastíssimo sem Donos, para Exportação e prosperidade desta 3ª Teimosa Canudos, que teimosamente quer re-Existir. O dia do Samba passa a ser também o dia que esta Paisagem, exatamente por ser reconhecida como Paisagem Cultural Brasileira, por sua Beleza Física e sua História passada e presente, começa a ser Mudada. Segue seu destino de ser o oposto do que lhe tacharam: lugar de messiânicos e de fanáticos. Reinicia com o sonho dinâmico, apaixonado de Antônio Maciel e dos Conselheiristas de ser o céu aqui, do Chão do Sertão, Onde as barrancas são de cuscuz de milhões, os rios de vinho e leite. O Teatro traz seu Deus Dionisio, deus dos ritos agrários de fartura para esta nova Paisagem.
Urge, portanto, o Governo Federal impulsionar a importância histórica, cultural e artítica do que está acontecendo neste dia e Tombar o Movimento como o da Alma Sonora do Samba, do equilíbrio desequilibrado, do diz que vai mas não vai, mas vai, sem sair do Ritmo e evoluindo, evoluindo, o novo desta Paisagem renovando-se na éternidade.
III. Da necessidade de preservação da região
O Decreto-Lei nº 25, de 30 de novembro de 1937, estabelece que constitui patrimônio histórico e artístico nacional o conjuntos de bens móveis ou imóveis existentes no país e cuja conservação seja de interesse público, quer por sua vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil, quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico. Nota-se que a região de Canudo e Quixeramobim se enquadram em todos os casos elencados no Art. 1º do mencionado diploma legal, seja pelo fato de consubstanciar uma paisagem cultural, seja por representar um marco na histórica do país, consistente no trágico retrato da força de seus corajosos habitantes, posta contra o abuso, até então incontestado, de uma República que se encontrava em formação. Dessa forma, é medida de rigor a constituição, por parte deste órgão preservacionista, da Cidade de Canudos e Quixeramobim como área de preservação do patrimônio histórico, cultural e artístico do país, porá assim, fim a carga de vilipêndios. Osvaldo Costa Martins acrescenta:
Quixeramobim, embora em melhores condições do que Canudos, é uma cidade pobre e a atividade de turismo histórico-cultural seria de grande importância para sua economia e memória. Articulada a Canudos, numa rota definida como Caminhos de Conselheiro, Quixeramobim comporá uma bela geografia simbólica que alavancará o turismo no ainda desconhecido sertão nordestino
O Turismo do Sertão inaugura outra qualidade, a das viajens de aprendizado de si mesmo, como as para a Índia, o Tibet, para a Grécia. O Mito, a Religião Mestiça, as Luta, as Pedras, a Escuta da Fala do Sertanejo no Silêncio dos Ermos, as Nuvens Gigantes, errantes, o pôr do sol rebatendo no chão de pedras preciosas rebrilhando, o Bode, a Cabra da Peste. O Desconhecido da Paisagem já vai descortinando Monte Santo, Pedra Bonita, Raso da Catarina, São Bom Jesus da Lapa, o País de Dentro.
IV. Da necessidade de reconstrução da cidade
A região de Canudos foi tornada muito pobre e sofre até os dias de hoje as conseqüências da Guerra, da Ditadura Militar e da Ignorância inclusive dos Idiotas da Objetividade da Academia que lhe impingiram uma série de preconceitos, maldições positivistas. A toda esta carga que o país todo ali despejou quando massacrou o que desconhecia, isto é, a si mesmo como povo, somam-se problemas das severas secas. Por isso seus heróicos 14 mil habitantes atuais ainda vivem condições precárias, não tendo assim em sua maioria, condições de subsistência digna, nem tampouco de conservação, restauração, ampliação dos seus tesouros históricos e econômicos locais com seus próprios recursos.
A Guerra de Canudos, conforme acima citado, foi um marco na história brasileira. Mas foi um marco recalcado, nunca encarado, por isso se repete nas Favelas de todo o país. É preciso mais uma vez lembrar não somente que o nome Favela nasceu aqui, mas é também o DNA da Topografia de Todas, a maneira de juntar-se do povo pobre, escurraçado como foram os índios cariri, os quilombolas do movimento 13 de maio, os lavradores sem terra, as mulheres, mães de família ou prostitutas, torturadas pelos machos patriarcais, os bandidos, convertidos felizmente aqui a uma crença forte e renovadora. Com o passar dos anos o local foi sendo esquecido pelas autoridades competentes, por nós mesmos, o que faz com que ainda hoje sofra constantes depredações, conjugadas com as intempéries dos fatores naturais.
V. Conclusão e pedido
Diante dos fatos e fundamentos acima expostos, a Associação Teatro Oficina Uzyna Uzona requer, a este Colendo Órgão, a constituição da Cidade de Canudos e Quixeramobim como área de preservação de patrimônio histórico, cultural e artístico do país.
Requer, ainda, via de consequência, a destinação de recursos financeiros dentro do orçamento do Governo Federal para a viabilização da reconstrução e restauração da cidade de Canudos, enquanto expoente histórico-cultural, com potencial de explosão criativa e econômica considerável.
Por fim, requer-se a realização de diligência técnica no local, para a apuração do atual estado da Cidade de Canudos.
Fortaleza, 24 de Novembro de 2007.
José Celso Martinez Corrêa
Presidente da Associação Teatro Oficina Uzyna Uzona
M E R D A