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O REI DA VELA:
MANIFESTO DO OFICINA

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O OFICINA procurava um texto para a inauguração de sua nova casa de espetáculos que ao  mesmo tempo inaugurasse a comunicação ao público de toda uma nova visão do teatro e da realidade brasileira. As remontagens que o OFICINA foi obrigado a realizar por causa do Incêndio estavam defasadas em relação à sua visão do Brasil desde os anos depois de abril de 64. O problema era o do aqui e agora. E o aqui e agora foi encontrado em 1933 no Rei da Vela de Oswald de Andrade.

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Senilidade mental nossa? Modernidade absoluta de Oswald? Ou pior, estagnação da realidade nacional?

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Eu havia lido o texto há alguns anos e ele permanecera mudo para mim. Me irritara mesmo. Me parecia modernoso e futuristóide. Mas mudou o Natal, e mudei eu. Depois de toda a festividade pré e pós golpe esgotar suas possibilidades de cantar a nossa terra, uma leitura do texto em voz alta para um grupo de pessoas fez saltar para mim e meus colegas do OFICINA, todo o percurso de Oswald na sua tentativa de tornar obra de arte toda a sua consciência possível de seu tempo. E O Rei da Vela (viva o mau gosto da imagem) iluminou um escuro enorme do que chamamos realidade brasileira, numa síntese quase inimaginável. E ficamos bestificados quando percebemos que o teto deste edifício nos cobria também, era a nossa mesma realidade brasileira, que ele ainda iluminava. Sob ele encontramos o Oswald grosso, antropófago, cruel, implacável, negro, apresentando a tudo a partir de um cogito muito especial. Esculhambo, logo existo.

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E esse esculhambar era o meio conhecimento e expressão de uma estrutura que sua consciência captava como inviável. Pois essa consciência se inspirava numa utopia de um país futuro, negação do país presente, de um país desligado dos seus centros de controle externo e conseqüentemente do escândalo de sua massa marginal faminta. Para captar essa totalidade era preciso um super esforço. Tudo isso não cabia no teatro da época, apto somente para exprimir os sentimentos brejeiros luso-brasileiros. Era preciso então reinventar o teatro.

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E Oswald reinventou o teatro. Para exprimir uma realidade nova e complexa era preciso reinventar formas que captássem essa nova realidade. E Oswald nos deu no O Rei da Vela a forma de tentar aprender através de sua consciência revolucionária uma realidade que é o oposto de todas as revoluções. O Rei da Vela ficou sendo uma revolução de forma e conteúdo para exprimir uma não-revolução. De sua consciência utópica e revolucionária Oswald reviu seu país, e em estado de criação quase selvagem captou toda a falta de criatividade e de história desse mesmo país. A peça, seus 34 anos, o fato de não ter sido montada até hoje, enfim tudo fez com que captássemos as mensagens de Oswald e as fizéssemos nossas mensagens de hoje.

(…)

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Oswald através de uma simbologia rica nos mostra O Rei da Vela se mantendo na base da exploração (Herdo um tostão em cada morto nacional) e da Frente Única Sexual, isto é, do conchavo com tudo e com todos (a vela como falus): Conchavo com a burguesia rural, com o imperialismo, com o operariado, etc. para manter um pequeno privilégio (não é o rei do petróleo, do aço, mas simplesmente o da mixuruca vela). Toda esta simbologia procura conhecer a realidade de um país sem História, preso a determinados coágulos que não permitem que essa história possa fluir. E faz destes personagens emanações, formas mortas, sem movimento, mas tendo como substituto toda sua falsa agitação, uma falsa euforia e um delírio verde-amarelo, ora ufanista, ora desenvolvimentista, ora esquerdista, ora defensor da segurança da pátria, mas sempre teatro, sempre mise-en-scène sempre brincadeira de verdade, baile do Municipal, procissão, desfile patriótico, marchas da família, Brasílias de cenário de Óperas. A peça é a mesma, trocando-se as plumas.

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A história real somente se fará com a devoração total da estrutura.

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Com a cidadela tomada não por dentro, mas por fora, onde só a fecundidade da violência poderá partir uma História.

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O humor grotesco, o sentido da paródia, o uso de formas feitas de teatro no teatro, literatura na literatura, faz do texto uma colagem do Brasil de 30, que permanece uma colagem ainda mais violenta do Brasil de trinta anos depois, pois acresce a denúncia da permanência da velhice dos mesmos e eternos personagens.

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OFICINA – 4 de setembro de 1967 – ensaio de O REI DA VELA

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Acolhido de diferentes maneiras em Nancy, onde sua obscenidade desagradou a alguns, é um espetáculo inteiramente rico e violento, impossível de analisar sem referências constantes à situação política e social do Brasil e sem colocar um paralelo com o filme de Glauber Rocha Terra em Transe. Do estilo de circo do primeiro ato, que se passa no escritório de um usuário, símbolo de todo o país vendido ao imperialismo norte-americano, ao estilo de ópera do terceiro ato, onde morre um burguês fascista assassinado por um burguês socialista que tomará seu lugar, passando pelo estilo de variedades do segundo ato, o da Frente Única Sexual, símbolo de todos os pactos que a burguesia precisa fazer para se manter no poder, o espetáculo do Teatro Oficina procura reencontrar as formas de expressão popular do Brasil para comunicar “a grosseira e vulgar realidade nacional” e exprimir toda a podridão do “imenso cadáver gangrenado” que é o Brasil de hoje onde a classe operária e camponesa é mantida, da mesma forma que nos anos de trinta, à margem da evolução política. A história não se fará senão pela Revolução: esta é a lição implícita em “O Rei da Vela”.

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Françoise Kourilsky, Le Nouvel Observateur – Paris – 4 de maio de 1968

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