O que foi publicado sobre Ham-let

Um Hamlet brasileiro e universal

a nova versão do Hamlet de José Celso Martinez Correia, o incansável, revela Shakespeare, convertendo a sua tragédia numa tragicomédia tornando a vingança,que é a razão da peça, irrisória
fazendo pouco do fantasma de um pai assassinado que não se conforma com o casamento da sua viúva e condena o filho a matar e morrer um pai usurpador, que se entrega à paixão do ódio por ignorar que “o amor é filho do tempo, tem um pavio apagador”, como diz a letra de uma das canções deste Hamlet , cuja inteligência é a da cultura carnavalesca do brincar, que zomba do sentimento quando ele é dogmático porque o dogmatismo está ligado à repetição e à morte engendra a guerra, é contrário à paz mas o que diria Shakespeare vendo que José Celso veste de doméstica o seu fantasma? apresenta Hamlet de calça abaixada ? sexo e traseiro para o ar como se no palco ele estivesse no banheiro poderia dizer que o Brasil ousa comparar o fantasma a um tirano ama Hamlet, ridicularizando-o, porque o herói acredita na tirania paterna, a mesma que sustenta tradição, família e propriedade o Oficina está aí para lembrar que o mundo continua às voltas com homens e mulheres tristes, inconsoláveis, carpideiras que fomentam a violência e a repressão proprietários que de tudo são capazes imaginar inclusive que podem desalojar o teatro em nome da lei a lei da propriedade, claro, que é tão indiferente ao prazer quanto à vida só sabe do sexo para engendrar o filho que deve vingar o pai jamais produziria, como Zé, um falo do qual jorra confete o sêmen que mais fertiliza, o sêmen colorido da arte e do carnaval Betty Milan, www.bettymilan.com.br, dez/2001

O Globe Theatre e o Teatro Oficina

Tive o privilégio de passar uma tarde inteira no Globe Theatre em Londres. Fiz a visita conferência que dura aproximadamente meia hora e diz respeito sobretudo à arquitetura do teatro e depois visitei por minha conta o Globe Center, onde uma exposição permanente focaliza as mais diversas questões relativas ao teatro shakespeariano- a história, o cenário, a música, o trabalho de ator, etc

Nessa tarde fiquei sabendo que, na época da construção do Globe (1599), Londres era a maior cidade da Europa e a sua prefeitura era particularmente hostil ao teatro. A ponto de tentar proibir as representações. Porque, além de “ímpio”, ele “desviava os jovens do trabalho”. Houve mesmo quem atribuisse a peste ao teatro.

Não fosse a proteção da rainha, ele teria desaparecido e foi para escapar à jurisdição da prefeitura que as companhias deixaram o centro de Londres, a City, e se radicaram na periferia, em Southwark, onde só era possível chegar atravessando a London Bridge em cujas extremidades ficavam pinduradas as cabeças dos criminosos recentemente executados.

Apesar da perseguição e do incêndio do Globe Theatre, que precisou ser reconstruído, a companhia de Shakespeare conseguiu encenar sem interrupção durante quarenta e oito anos . A tenacidade do dramaturgo e a sua luta para ter um teatro próprio me fez pensar na história do Teatro Oficina, que é indissociável da história da cidade de São Paulo, a maior da América Latina.

A luta de José Celso pelo espaço do Oficina é tão importante quanto a dramaturgia dele e o seu trabalho de diretor. Disso eu já sabia , mas em Londres eu descobri que Shakespeare travou a mesma luta, entendi porque o Hamlet brasileiro, o Ham-let, foi tão inspirado.
Betty Milan, www.bettymilan.com.br, dez/2001

“O Ham-let de José Celso Martinez Corrêa é um banquete de energia, uma sucessão de imagens fortes e belas, uma peça que tem tudo para ser um marco no teatro brasileiro desta década. A encenação não faz concessões. Vai fundo em tudo, seja no clima lúgubre e dilacerante da tragédia, seja na celebração da vida, como na entrada em cena de um pênis de três metros de comprimento que lança confete. Se você gosta de teatro que apela as sua entranhas, vá ao Teatro Oficina.”
Mário Vitor Santos, Folha de São Paulo, 10/10/93

“Ham-let é um espetáculo vibrante, reafirmativo, sem o ranço empolado dos clássicos, que tem o mérito de desnudar e assumir pontos polêmicos no texto de Shakespeare, como a controvertida relação de homossexualidade entre o rei Cláudio e seu assistente Polonio e o sentimento incestuoso entre a rainha Gertrudes e seu filho Hamlet.”
Edgar Olimpio de Souza, Diário Popular, São Paulo, 06/10/93

“Ham-let é um desses eventos que, se fosse em Paris, estaria lotado, esgotado até 1995, com turistas culturais fazendo fila.”
Gerald Thomas, Folha de São Paulo, 5/12/93

“Ham-let é uma orgia. Tudo é festa, catarse dionisíaca, subversão da estética cênica em favor de um ator em estado bruto e, portanto, mais espontâneo naquilo que ele e seu corpo realmente comunicam. Tudo é surpresa, ritual. Desde a entrada no galpão na rua Jaceguai, na Capital, até depois de mais de cinco horas de espetáculo, há sempre impacto.”
Valmir Santos, O Diário de Mogi das Cruzes, 3/10/93

“Ham-let é massacrante, desmesurado, épico, genial. Puro José Celso Martinez Corrêa. Os puristas que preferem ver Hamlet sisudo, trágico, à inglesa, podem guardar distância.”
Alberto Guzik, Jornal da Tarde, São Paulo, 5/10/93

“A tragédia shakespeariana se consuma ao som do batuque e tudo é possível: olhar sem vergonha para os seios da rainha mãe e ver que Hamlet tinha pau.”
Betty Milan, Folha de São Paulo, 18/2/94

“O Ham-let do Zé Celso é possivelmente o mais belo espetáculo que ele já dirigiu. Ele introduziu muito mais que um hífen entre a primeira e a última sílaba do nome do protagonista: há bossa-nova e rocknroll, homoerotismo e CPC, Brecht e umbanda… Há muito tempo não vejo tantos atores juntos em interpretações tão apaixonadas. As cinco horas que a peça dura parecem rápidos minutos, tão divertidos, intrigantes e emocionantes são os acontecimentos cênicos que se sucedem. Se eu pudesse convenceria todos os brasileiros a assistirem esse espetáculo.”
Caetano Veloso, Folha de São Paulo, 21/10/93

“Um fato chamou a atenção na estréia. Havia crianças na platéia, e elas seguiram com atenção a maratona cênica. Provável encontro do novo com o novo.”
Jefferson Del Rios, O Estado de São Paulo, 4/10/93